Bauru fica fora de programa de até R$ 2 milhões para arborização urbana

Bauru deixou de concorrer a até R$ 2 milhões para arborização urbana porque a proposta municipal ao programa ArborizaCidades não teve sua submissão concluída. Segundo a explicação apresentada pela Secretaria do Meio Ambiente e Bem-Estar Animal (SEMAB), faltou a assinatura da prefeita em um dos documentos.

O Fruto Urbano considera a situação absolutamente inacreditável e exige explicações públicas da Prefeitura de Bauru.

O ArborizaCidades é uma iniciativa do Governo Federal para fortalecer a arborização urbana e reduzir o calor extremo nas cidades. O edital aceitava propostas até R$ 2 milhões para plantio, manutenção, planejamento, produção de mudas e ampliação da cobertura arbórea. R$ 2 milhões para arborização urbana!

Referências oficiais:
Edital FNMA nº 1/2026 — Iniciativa ArborizaCidades
Prorrogação do prazo para 13 de julho de 2026

O projeto estava pronto, mas Bauru ficou fora

Segundo informações apresentadas por diretor da SEMAB, a equipe técnica concluiu o projeto dentro do prazo. A proposta, porém, não alcançou o status obrigatório de “enviada para análise” no sistema de convênios do Governo Federal e Bauru ficou fora da disputa pelos recursos.

Questionado sobre o ocorrido, Roldão Pucci Neto, secretário adjunto e diretor da SEMAB, informou que teria faltado a assinatura da prefeita em um dos documentos e apontou a Coordenadoria de Convênios como responsável pela etapa final da submissão.

Em 7 de julho, quando o Fruto Urbano perguntou se o envio havia sido concluído, recebeu a informação de que sim. O prazo, porém, permaneceria aberto por mais seis dias, até 13 de julho.

Se a situação real tivesse sido detectada naquele momento, ainda haveria tempo para cobrar a assinatura, conferir a documentação e tentar concluir corretamente a inscrição.

O projeto que poderia transformar o centro de Bauru

O Fruto Urbano teve acesso ao projeto. Os mapas mostram que não se tratava de uma proposta genérica ou simbólica. Havia planejamento territorial concreto, com vias definidas, setores beneficiados e corredores de conectividade ambiental.

O traçado principal previa aproximadamente 10,1 quilômetros de arborização e conectividade, passando pelas avenidas Rodrigues Alves, Duque de Caxias e Nações Unidas, além da região do Parque Vitória Régia.

A proposta conectaria áreas de preservação permanente do Rio Bauru e do Córrego Água Comprida, transformando avenidas hoje dominadas pelo asfalto, pelo calor e pela falta de sombra em corredores verdes integrados à rede hídrica e ambiental da cidade.

Nos setores 1 e 12, que abrangem uma extensa região central, os croquis indicavam arborização distribuída por aproximadamente 120 quilômetros de vias. Outro núcleo previa cerca de 2 quilômetros de arborização na Vila Cristiana.

O impacto potencial era enorme: mais sombra para pedestres, redução das temperaturas, proteção do solo, melhoria da paisagem, ampliação da biodiversidade, maior conforto nos deslocamentos e conexão entre áreas verdes hoje isoladas.

Ruas e avenidas extremamente quentes poderiam se transformar, ao longo dos anos, em rotas arborizadas, mais caminháveis, mais humanas e mais preparadas para enfrentar o calor extremo. Lamentável!

A prefeitura de Bauru precisa entender que as árvores urbanas não são decoração. São infraestrutura climática, saúde pública e qualidade de vida.

É revoltante olhar para esses mapas e perceber a dimensão da oportunidade perdida. A proposta existia, o planejamento estava pronto, as áreas estavam identificadas e o edital federal estava aberto. Mesmo assim, a Prefeitura não conseguiu concluir a participação de Bauru.

Não foi apenas uma inscrição que deixou de ser enviada. Bauru perdeu a oportunidade de iniciar uma transformação histórica em sua paisagem urbana.

Mais árvores para enfrentar o calor e a seca

A perda é ainda mais grave porque Bauru não sofre apenas com o calor e a falta de sombra. A cidade também enfrenta períodos recorrentes de chuva abaixo da média e déficit hídrico. Quem mora em Bauru sabe o que é ficar sem uma gota de água na torneira por uma semana.

Um estudo acadêmico desenvolvido no curso de Meteorologia da UNESP de Bauru analisou dados de precipitação coletados entre 2017 e 2021, comparando a chuva acumulada em regiões urbanizadas e vegetadas do município.

O trabalho acadêmico “Comparação da chuva acumulada sobre áreas urbana e vegetada na cidade de Bauru (SP)” encontrou maior acúmulo de chuva na região vegetada ao longo do ano. A área urbana também não apresentou o maior volume acumulado durante o verão, indicando a importância da umidade associada à vegetação para a formação das chuvas.

As árvores devolvem umidade à atmosfera por meio da evapotranspiração, processo que participa da circulação e da reciclagem da água. Pesquisas internacionais também mostram que massas de ar que atravessam áreas extensamente vegetadas podem produzir mais chuva do que aquelas que passam por regiões com pouca vegetação.

Isso não significa que a falta de árvores seja a única causa dos períodos de seca. As chuvas também dependem de frentes frias, massas de ar, temperaturas oceânicas e sistemas atmosféricos regionais. Mas as evidências demonstram que a vegetação participa do equilíbrio climático e hídrico local.

Retirar árvores, impermeabilizar o solo e transformar a cidade em uma extensa superfície de asfalto e concreto elimina justamente mecanismos naturais que ajudam a conservar umidade, absorver água e regular o clima.

Dados do Centro de Meteorologia de Bauru (IPMet/UNESP) mostram que o problema não é abstrato. Em janeiro de 2024, climatologicamente o mês mais chuvoso do ano, Bauru registrou 203,5 milímetros de chuva, aproximadamente 30% abaixo da média histórica de 291 milímetros.

Em agosto de 2025, foram registrados apenas 2 milímetros: cerca de 94% abaixo do esperado para o mês. Segundo o IPMet, o resultado agravou o déficit hídrico do município.

Uma cidade que sofre com calor extremo, baixa umidade e períodos prolongados de chuva abaixo da média não pode tratar a arborização como ação secundária.

Bauru deixou escapar uma oportunidade concreta de enfrentar o calor, a seca, a impermeabilização e o desequilíbrio climático da cidade.

Referências:

CANCIAN, João Luiz da Silva. Comparação da chuva acumulada sobre áreas urbana e vegetada na cidade de Bauru (SP). 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Meteorologia) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Bauru, 2023. Disponível em: Repositório Institucional da Unesp. Acesso em: 3 ago. 2026.

IPMet/UNESP — Janeiro de 2024 com chuva abaixo da média em Bauru

IPMet/UNESP — Agosto de 2025 extremamente seco em Bauru

Nature — Observations of increased tropical rainfall preceded by air passage over forests

A explicação apresentada não é suficiente

Se realmente faltava apenas uma assinatura, tratava-se de uma pendência simples, que deveria ter sido identificada e resolvida antes do encerramento do prazo. Além disso, o sistema do Governo Federal permite pequenos ajustes administrativos dessa natureza, mesmo após protocolar a proposta.

Uma proposta federal de até R$ 2 milhões não pode ser repassada de um setor para outro sem controle dos documentos, conferência das assinaturas, cobrança dos responsáveis e confirmação do protocolo final.

A alegação de que “faltou uma assinatura” não explica por que a pendência não foi percebida, por que a assinatura não foi cobrada nem por que a direção responsável pelo projeto não confirmou a submissão.

Embora a etapa final tenha sido atribuída à Coordenadoria de Convênios, a direção da SEMAB também tinha o dever institucional de acompanhar uma proposta diretamente relacionada à política ambiental do município.

Não bastava elaborar o conteúdo técnico e encaminhá-lo. Quem coordena uma proposta dessa importância precisa acompanhá-la do início ao fim.

Deixar a inscrição sem acompanhamento demonstra, no mínimo, uma grave falha de gestão documental, coordenação administrativa e definição de responsabilidades.

A simplicidade da pendência informada também levanta uma pergunta inevitável: houve apenas desorganização e negligência (o que é inadmissível) ou existiu alguma decisão de não concluir o envio dessa proposta, de forma intencional? A prefeitura precisa responder essa pergunta também.

Essa questão precisa ser respondida com documentos, registros da plataforma e identificação clara dos responsáveis por cada etapa.

O que a Prefeitura precisa esclarecer

  1. Qual documento estava sem assinatura?
  2. Quando ele foi encaminhado para assinatura?
  3. Quando a ausência da assinatura foi identificada?
  4. Quem era responsável por obter e conferir a assinatura?
  5. A Coordenadoria de Convênios tentou realizar a submissão?
  6. Qual era o status da proposta no Transferegov em 7 e 13 de julho?
  7. A direção da SEMAB solicitou ou conferiu o protocolo definitivo?
  8. Quem informou à equipe técnica que a proposta estava inscrita?
  9. Por que a pendência não foi resolvida enquanto ainda havia prazo?
  10. Houve alguma decisão administrativa de não concluir a submissão?

O Fruto Urbano exigirá os documentos e as respostas

O Instituto Fruto Urbano solicitará formalmente à Prefeitura de Bauru:

  • cópia integral do projeto;
  • cópia do documento que teria ficado sem assinatura;
  • histórico de tramitação entre a SEMAB e a Coordenadoria de Convênios;
  • registros, capturas e comprovantes do Transferegov;
  • identificação dos responsáveis por cada etapa;
  • comunicações internas relacionadas à assinatura e à submissão;
  • justificativas formais para a não conclusão do envio.

O caso também será encaminhado à Câmara Municipal, à imprensa e aos órgãos competentes de fiscalização e controle.

A Prefeitura não pode simplesmente guardar o projeto e dizer que buscará outros recursos. Antes disso, precisa explicar por que não aproveitou a oportunidade disponível, quem falhou e quais providências serão tomadas para impedir que isso aconteça novamente.

O projeto estava pronto. Ainda havia prazo. Mesmo assim, Bauru ficou fora.

É absolutamente lamentável.


Esta publicação será atualizada conforme a Prefeitura de Bauru apresente os documentos, os registros da plataforma e os esclarecimentos oficiais sobre a submissão da proposta.